review - Hollow Knight
Hollow Knight carrega uma reputação de jogo brutalmente difícil, mas essa fama exagera a realidade. Morri pela primeira vez apenas no sexto boss enfrentado, e isso não foi por habilidade excepcional — foi porque o jogo constrói sua curva de dificuldade com mais paciência do que a propaganda sugere. O desafio existe, mas vem em doses calculadas, não como uma parede imediata de frustração.
O início é propositalmente desorientador. Você é largado em Dirtmouth sem tutoriais elaborados, sem objetivos marcados no mapa. Essa sensação de estar perdido tem algo de especial: há uma descoberta genuína em tropeçar por corredores escuros, encontrar atalhos inesperados, desvendar conexões entre áreas. O mundo é fechado, claustrofóbico até, mas essa estrutura labiríntica funciona a favor da exploração orgânica. Você não está seguindo waypoints — está realmente explorando.
O problema aparece justamente nessa fase inicial. A mobilidade é limitada demais no começo. Sem dash, sem salto duplo, sem opções de combate além do básico, a gameplay parece lenta e travada. Se você espera dinamismo imediato, vai se decepcionar. O jogo pede tempo para desbloquear movimentos que deveriam estar disponíveis mais cedo. Essa escolha de design prejudica o ritmo nas primeiras horas, tornando a experiência menos fluida do que poderia ser.
A trilha sonora, por outro lado, é impecável. Não é exagero dizer que funciona fora do contexto do jogo — tanto que mantenho o álbum completo no celular. Christopher Larkin construiu composições que não apenas acompanham a atmosfera, mas definem o tom emocional de cada região. City of Tears não precisa de diálogo para transmitir melancolia. Mantis Lords é adrenalina pura traduzida em som. A música carrega peso narrativo sem precisar ser explicada.
Buscar a platina foi natural. Não parecia uma lista de tarefas obrigatórias, mas uma extensão do desejo de continuar jogando. A maior parte do conteúdo flui sem forçar farming artificial ou objetivos absurdos. Até que você chega nos Panteões. Aí a dificuldade que o jogo vinha dosando com cuidado desaba de uma vez. Os Panteões são maratonas de concentração e execução perfeita, testando resistência mental tanto quanto habilidade. É onde a reputação de “jogo difícil” finalmente se justifica — mas também onde muita gente desiste, e com razão.
Hollow Knight merece o status de referência no gênero metroidvania. A direção de arte em 2D desenhado à mão, a exploração não-linear bem construída, a trilha sonora memorável — tudo isso se encaixa num pacote coeso e ambicioso. Mas não é perfeito. A mobilidade inicial frustra, e os Panteões extrapolam o limite entre desafio e exaustão.
Para quem gosta de exploração paciente e atmosfera densa, é praticamente obrigatório. Para quem busca ação frenética desde o primeiro minuto, vai precisar de paciência. Se você aceita que o jogo amadurece conforme você avança, a recompensa vale cada hora investida.
9.6/10